V de Princípio, V de Regime, V de Vertentes

O silêncio nas últimas semanas não foi a toa. Quem acompanha minha página pessoal, debateu, concordou, discordou ou repudiou minhas opiniões sobre a alvoroçada política brasileira. Já gastei muito da minha munição. Contudo não gostaria que o QnS ficasse de fora disso, da discussão que não deve cessar sobre política, seja agora, seja sempre. Pensar quadrinhos da forma como é proposto aqui não deixa de ser um pensar sobre a própria política, ou mais especificamente, a política das imagens.

Por isso quero fazer uma análise política de uma imagem específica, cara às histórias em quadrinhos, e que tomou as ruas: a máscara de Guy Fawkes da HQ e filme V de Vingança. Não vou entrar no mérito de quais reivindicações são válidas no meu entender. Porém quero ressaltar algo que dá base ao imaginário dessas reivindicações: o entendimento do que significa a máscara do V. Afinal, não há povo que não precise de símbolos para se afirmar. Então, levando em conta a grande presença da máscara nos protestos, que povo é esse que nela se identifica?

É preciso considerar algumas hipóteses com boa probabilidade. A primeira é que a maioria não leu a HQ de Alan Moore e David LLoyd. Muito mais provável é que só tenham visto o filme, dirigido por James McTeigue. Todavia, não podemos ignorar a força dos memes de internet, algo em que a máscara se converteu, sendo adotada pelo grupo Anonymous e por tanta gente que sai por aí para protestar sequer sabendo o sentido anárquico original. 

Ora, apropriações é algo comum na cultura, afinal o próprio Guy Fawkes era um católico fervoroso e sua imagem foi transformada pela HQ, por meio da máscara, em símbolo da Anarquia. Enigmática e risonha, a máscara mescla Guy Fawkes a um forte apelo teatral que em muito lembra as máscaras do Carnaval de Veneza. Algo coerente à estória de Moore, pois V é um personagem rodeado de farsas a respeito de sua identidade, demonstra um constante bom humor e elegância, seu esconderijo é um camarim e ele adora Shakespeare e fogos de artifício.

Porém, apesar da livre apropriação que a cultura nos dá licença, é preciso, considerando a HQ e o filme, pensar sob qual máscara muitos estão querendo se mostrar. Por ora ignoro simbolicamente o que a máscara enquanto meme evoca, afinal é necessária uma pesquisa material bastante ampla, pois encontramos a máscara caracterizada pelo mero anonimato, ou por sinônimo de palhaço, ou até mesmo identificada a um discurso nacionalista, com cores da bandeira do país, algo que vai frontalmente contra o internacionalismo do homem livre próprio à anarquia.

Incoerências políticas à parte, a máscara de Guy Fawkes tem também funções diferentes ao final da HQ e do filme V de Vingança – e é precisamente aqui que acho que cada ativista, seja na rua, seja na poltrona, deveria pensar com mais cuidado a respeito. Serei sucinto: na HQ a máscara é um princípio, no filme a máscara é um regime.

Retomemos à forte imagem do clímax do filme, usada a rodo nas redes sociais durante as manifestações: a cena da multidão de pessoas mascaradas e vestidas de V. É difícil de negar o quanto essa imagem influenciou tanta gente a sair de casa com essa mesma máscara. De forma que aqueles que não viram o filme ou pouco lembram dele, veem naquela multidão confrontando o Estado (na figura das forças armadas e dos políticos) um sentimento de pertença, de anonimato protegido sob a máscara de uma multidão, na contestação de um povo. “Nós somos legião”, diz o lema do grupo Anonymous – provavelmente inspirado no filme, na revolução de uma multidão sem rosto.

É curioso notar que essa situação inexiste na HQ. A ênfase ali é outra. Na HQ há muito menos esse sentimento de pertença, e muito mais a afirmação do indivíduo na vida nua. Basta ver a incidência de alguém nu diante de uma situação natural limítrofe. Primeiro temos V nu em meio ao fogo, depois Eve esquálida e nua debaixo de uma tempestade, e por fim o investigador Eric Finch nu no sempre místico Stonehenge. No final da HQ não há uma multidão travestida porque não há mais roupas a vestir (conforme o fascismo determinava na sua adoração por uniformes). Sobrou apenas roupas a tirar (com a exceção de Eve que assume para si o fardo de ainda vestir uma Ideia). 

Reconsideremos, portanto, o quadrinho final: Finch caminhando ao léu numa rodovia deserta. Na HQ a revolução é muito mais solitária (e também passageira) do que a festança que o filme catapulta enfatizando o corte coletivo entre o velho (o palácio de Westminster) e o novo (a explosão, a música e os fogos de artifício). Na HQ também há explosões, mas de uma maneira muito mais discreta, sem grandes alardes visuais. Já no filme, depois do Estado explodido, todos tiram suas máscaras, afirmando suas diferenças, exibindo suas individualidades. Porém ao precisarem da máscara para chegarem a isso, diferentemente da HQ, algo não se perdeu?

Infelizmente não consegui encontrar a fonte, mas recordo de uma entrevista em que Alan Moore defende a anarquia como um princípio. Ao ler a HQ isso fica bastante nítido. A anarquia, a defesa de uma vida livre contra todo e qualquer autoritarismo, consegue ser muito mais efetiva como um princípio do que como um regime. Pois até que ponto a anarquia, transformada em mais um “ismo”, se engessa enquanto um sistema, sendo coercitiva em suas regras como qualquer outro?

É pela defesa da assistematização que a anarquia precisa se esquivar da vontade de se tornar um regime. E é precisamente nessa tentação que o filme cai: V arregimenta toda a população, a multidão marcha mascarada de uma Ideia, participamos da doce miragem que o novo conseguiu varrer com todos os vícios do velho (como se isso fosse possível), e todo o messianismo (sempre perigoso) das revoluções regimentais ganha forma. Nessa perspectiva é de se perguntar se no filme assistimos a uma revolução ou somente a uma troca de mandato. 

Seja como for, se quisermos banalizar o sentido de revolução, que saibamos distinguir politicamente o clamor revolucionário, na HQ e no filme. Por isso, estejamos nas ruas ou não, é fundamental nos perguntarmos se ansiamos alguma revolução e de qual revolução estamos querendo nos mascarar: aquela ainda por vir, aquela travada no íntimo de cada um, aquela que está sempre em movimento – a revolução do princípio; ou aquela que substitui sistemas, aquela que elege um novo amo, aquela que se move por uma marcha metodologicamente uniformizada – a revolução do regime. 
É de uma pergunta tão sacana que minha máscara sorri debochadamente.

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V de Vingança, a HQ, foi produzida entre 1982 e 89, publicada no Reino Unido e nos EUA. No Brasil possui várias edições, sendo a última pela editora Panini em 2006 e com reimpressão em 2012.