Turma da Mônica parte 1 – sem carinho

Na trilogia MSP 50 (Mauricio de Sousa por 50 artistas) em comemoração aos 50 anos de carreira do quadrinista, onde no total 150 artistas brasileiros retrataram com alguma liberdade a Turma da Mônica, Mauricio de Sousa diz “ muito obrigado pelo carinho com meus personagens e, por consequência, comigo”. Isso me fez refletir. A frase de Mauricio me parece bastante correta, porém me questiono: tem havido carinho pela Turma da Mônica nas últimas décadas? 

Eu não gosto muito da Turma da Mônica. Pelo menos não do que a “turminha” virou. Se houve alguma espontaneidade lá no começo com Mauricio de Sousa, hoje temos personagens monolíticos que repetem à exaustão uma mesma fórmula. Ao contrário do hermano Quino com sua Mafalda, ou Ziraldo com seu Pererê ou Menino Maluquinho onde se percebe alguma inquietação, na Turma da Mônica hoje prevalece o senso comum. 

A onda do politicamente correto que a Turma da Mônica se filiou a deteriorou ainda mais – temos personagens cotistas inexpressivos pra quase tudo. Mais do que isso, certa vez em entrevista no programa roda-viva, Mauricio de Sousa disse que só haveria um personagem homossexual quando o Brasil estivesse preparado pra isso. Ou seja, não há nenhum passo a frente, no máximo ao lado, sempre a reboque da cultura. Assim se fabrica o sucesso: você diz o que o público quer ouvir. Sacia seu ego, reafirma seus valores e no final o afaga com algum moralismo ou piada infame. A Turma da Mônica hoje é quase um “ministério do imaginário” com tantos vínculos oficiais.

Há ainda o mito romântico do gênio. Mas do gênio do mercado. Quando enaltecem Mauricio de Sousa sempre é em número de vendas, ganhos de mercado, estratégias capitais como personagens de jogadores de futebol (Pelé, Ronaldinho, tão logo Neymar) ou estilizados na moda Mangá (Turma da Mônica Jovem).  Percebo com isso dois problemas: primeiramente desaparece o nome de outros tantos artistas envolvidos na criação contínua da “turminha” (que discretamente são creditados), e, acima de tudo, desaparece também aquilo que fez o universo de Mauricio de Sousa ser tão rico: ele mesmo.

Sim, eis a questão: o que menos se vê nesse papo de mito do herói brasileiro e quadrinho lucrativo que vende pra não sei quantos países, são os próprios personagens, seu universo, sua linguagem e potencialidade que ainda, apesar de tudo, perdura. O que menos se vê, portanto, é carinho “por tabela” como diz a frase de Mauricio. Alguém apontará: mas com os gibis de super-heróis americanos se faz os mesmo tipos de enaltecimentos. Eu concordo – e justamente por isso me pergunto se precisamos utilizar das mesmas práticas. Ora, se o único qualitativo fosse vendagem, um filme pornô meia-boca seria melhor que a “turminha” – algo que discordo. Há uma riqueza na Turma da Mônica por trás do arremedo de si mesma que ela parece ter se transformado. É nesse sentido que destaco a trilogia MSP 50.

A iniciativa de homenagear os 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa dando a diversos artistas alguma liberdade no roteiro e no desenho me parece uma pontual retomada de carinho. Carinho, aqui destaco, como reconsideração afetuosa de uma riqueza perdida, escondida ou enfraquecida. Curiosamente, a vivacidade da “turminha” reaparece na medida em que ela é potencializada, onde se experimenta variações estéticas, de enredo ou traço. Quer maior demonstração de carinho por um personagem do que mostrar que ele ainda é forte mesmo sob múltiplos olhares?

Ainda que houvesse estórias que reafirmassem esse mito romântico do gênio (principalmente no primeiro volume) ou do culto ilimitado ao mercado (na biografia de Mauricio que vem anexa só há uma lista de titulações oficiais e números atrás de números – pontos a destacar da sua arte, nem uma linha), há no geral em MSP 50 um tratamento carinhoso. Serão as maneiras que esse carinho aparece no universo Mauricio de Sousa, no tratamento de seus personagens nas muitas estórias, que pontuarei no próximo escrito.


No mais, fica o desejo que a frase de Mauricio se torne realidade (nem que seja contra ele mesmo). Que o carinho, mais do que por números, ganhos e notoriedade seja pelos personagens, por aquilo que eles têm de diverso e escapa das cercanias do “produto”.  Por consequência assim então se dará significativo valor a esse tradicional quadrinista brasileiro.

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A trilogia em questão saiu com os seguintes títulos: MSP 50 “Mauricio de Sousa por 50 Artistas”, MSP + 50 “Mauricio de Sousa por mais 50 Artistas” e MSP Novos 50 “Mauricio de Sousa por 50 Novos Artistas”. Publicadas respectivamente em 2009, 2010 e 2011. Há versão capa-dura e capa cartonada de cada edição, sendo a primeira quase o dobro do preço da segunda. Vale muito a pena pra conhecer alguns dos interessantes quadrinistas brasileiros da atualidade, assim como perceber como a Turma da Mônica pode ser ainda muito mais rica do que normalmente se esperaria.