Quadrinhos, essa infante arte popular

Quadrinhos é uma arte popular? Aproveitando minha visita à Sampa, fui andarilhar pelos sebos. Conheci o Sebo do Fidel, tradicional sebo de Santana, embora de casa nova. Perto dali, outro sebo, Universo Fantástico. Em ambos, o que prevaleceu foi o bate-papo sobre quadrinhos, uma conversa interminável, saborosa, cheia de desvios e quase alienígena em uma cidade sempre com tanta pressa. Porém, e isso é o mais importante, era um papo sobre leitura. Algo bem diferente do que vemos se disseminar pelo facebook e afins, onde todo mundo posa de especialista, todos discutem meandros do mercado, biografia dos autores, preços e guias de consumo.
Por que num sebo de bairro o bate-papo é diferente? Porque nele há uma alienação natural perante o material. Dificilmente teremos um google à disposição para pesquisar, fisicamente estamos diante de fragmentos de edições e o tempo, diferentemente da internet (ou de um congresso acadêmico), é perdido perante a “bagunça” natural do arquivo, que sempre reserva surpresas a qualquer “especialista”. Da mesma forma o fetiche, num sebo, é diferente de um “guia de consumo dos últimos lançamentos”, pois apela justamente a essa popularidade, já que estamos cientes de manusear algo por onde os olhos e os dedos de outras pessoas já passaram. Novamente uma experiência compartilhada, como se encontrássemos um “amigo oculto” em uma narrativa misteriosa (Por que ele se desfez afinal disso? Quem ele era? O que será que achou dessa história?). Em resumo, no sebo não estamos lidando com informações, e sim com experiências. Experiências de leitura, ressalto. 

Fidel e o sebo
Ora, não seria justamente essa a experiência popular dos quadrinhos? Entendo que popular é toda forma de experiência coletiva e compartilhada, do tipo que é profunda, que toca os leitores, ao mesmo tempo em que não há, necessariamente, um sofisticado discernimento simbólico do que é lido. É algo semelhante à infância, àquele desprendimento que facilmente nos permite brincar com um estranho, compartilhando uma experiência criativa, sendo ela um tanto intuitiva, pouco questionadora e ainda assim instigante. O popular é a propagação de um imaginário oculto que nos toca apenas como sintoma. Seria o sintoma da infância, não aquela perdida, mas aquela que sobrevive em todos nós? 
Para responder uma pergunta tão complicada, precisaríamos de algo muito mais extenso que esse texto. Contudo, vale a pena retomar Thierry Groensteen, em “História em Quadrinhos: Essa desconhecida arte popular”, onde são pesquisados três gêneros que deram início às HQs e nelas se perpetuam. Groensteen delimita: 1) a histórias de viajantes, 2) a fantasia (e a ficção científica) e 3) o humor, a bobagem e as tolices de todo tipo. De Rodolphe Töpffer à Winsor McCay, de Christophe à George Herriman, os quadrinhos do século XIX e começo do XX primaram por tais gêneros. Eu faria um apêndice: a comédia de costumes ou crítica social, que de alguma forma se dissemina nesses três gêneros, seja no viajante ou no universo fantástico pelo choque cultural, seja no humor pela satirização da cultura.
Seja como for, o que interessa, por agora, no diagnóstico de Groensteen, é que esses três gêneros possuem uma íntima relação com as crianças, ou, acréscimo meu, com o culto à infância, ao tempo lúdico, de viagens, fantasias e humor inocente, que hoje nós, adultos, gostamos de fazer renascer quando relemos (ou lemos pela primeira vez) tal material. Essa poderia ser a explicação da popularidade dos quadrinhos? Simplista (e acredito, equivocado) dizer que esta é a única razão, porém é difícil de negar esse gozo infantil tão onipresente nos quadrinhos mais populares. Um objeto de fetiche, portanto? Um elo de ligação com o prazer infantil, por ventura recalcado numa sociedade de austeros adultos? 
O que é interessante nesta hipótese é que a partir dos anos 1960, quando os quadrinhos passaram a se pretender adultos, com os álbuns eróticos publicados em livrarias por Eric Losfeld, com os estudos acadêmicos, inicialmente na Itália e na França, com a provocação da Pop Art (que de alguma forma inseria os quadrinhos num sofisticado debate sobre arte), houve uma crescente diminuição da popularidade dos quadrinhos para uma cada vez maior aceitação, contudo segmentada para apreciadores. Claro, outros fatores são igualmente importantes, o surgimento da TV, a transição gradual em relevância dos quadrinhos publicados em jornais (onde o leitor ocasional poderia ser fisgado) para as revistas, assim como a mudança de lugar, das bancas para as comicshops ou para as estantes de gênero das livrarias.
Contudo, essas mudanças, sejam elas conceituais, materiais ou mercadológicas, todas caminharam para transformar os quadrinhos em, digamos, poesia: uma coisa espinhosa que é respeitada, apreciada, porém pouco procurada ou acessível à maioria. Uma mudança com perdas e ganhos, perda da experiência popular, ganho da sofisticação artística. Pois bem, o que isso tem a ver com os sebos? Ocorre que nos sebos ainda resiste, de alguma forma, esse espírito popular antigo. Quando um gibi escrito pelo Alan Moore dá barato, da mesma forma a tirinha mais inocente da Luluzinha pode dar – todas as brincadeiras, todos os jogos, tramas e artes nos quadrinhos são válidas quando nos tocam pelo motivo desconhecido que for. O que vale é a experiência da leitura (também uma brincadeira) que só se manifesta quando compartilhada com o outro.     
Não que a popularidade dos quadrinhos tenha sumido por completo em outras esferas, e não que todo sebo e livraria sejam iguais (as vezes um sebo pode apresentar a impessoalidade de uma livraria e vice-versa), mas a segmentação do mercado, os preços mais elevados, os acabamentos mais luxuosos e as tiragens menores mostram que o futuro dos quadrinhos parece trilhar para o oposto da popularidade, flertando, ironicamente, com o reconhecimento. Isso é ruim? Talvez não, desde que possamos ainda ter nossas máquinas do tempo, como uma boa e nostálgica conversa fiada de sebo. 
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“História em Quadrinhos: Essa desconhecida arte popular”, de Thierry Groensteen, com prefácio e tradução de Henrique Magalhães, saiu pela Marca de Fantasia em 2004, e pode ser adquirido diretamente pelo site da editora