A Quadrinhogenia de Valentina

É curioso percebermos um trajeto do qual somos resultado. Ao ler as primeiras estórias de Valentina de Guido Crepax percebi uma trilha que alcança a existência desse blog. Valentina é talvez o exemplo mais emblemático para a valorização artística que os quadrinhos passaram a conquistar pela crítica a partir dos anos 1960. Ao misturar referências da “alta” literatura, artes plásticas, música erudita, arquitetura, cinema e da própria história das HQs, Crepax relativiza (e debocha) em grande parte a suposta inferioridade dos quadrinhos. 

Mas isso aparece mais do que discursivamente – aparece artisticamente. A sofisticação visual de Valentina é ainda hoje bastante apurada, seja na composição interna dos quadros, seja no formato e inter-relação que apresentam em cada página. Soma-se um traço sinuoso e uma estória e narrativa envolventes e podemos dizer que toda essa valorização histórica pode ir à merda, pois Valentina até hoje é um gibi do caralho!

Minha empolgação (e erudito vocabulário) não é gratuito. Valentina com seu erotismo ora suave, ora agressivo, condensa muito bem o belo e o grotesco. Originalmente a bela fotógrafa milanesa Valentina Rosselli apareceu como par romântico na estória “A Curva de Lesmo”, de 1965, onde o protagonista é Philip Rembrandt, crítico de arte e também o super-herói Neutron, dotado de poderes mentais (capazes de paralisar qualquer pessoa ou máquina). Porém desde ali já fica evidente que o charme da moça inspirada na atriz Louise Brooks (Diário de uma garota perdida, A caixa de Pandora) iria aflorar para além do seu heroico namorado. Não há como resistir à fotogenia (ou seria quadrinhogenia?) de Valentina.

Por isso quero destacar uma estória de Valentina que não conta com a presença de Neutron. Em “Sogno” (sonho) por meio de uma narrativa lisérgica delirante, vemos Valentina tendo sua consciência burguesa massacrada por um grupo de arquétipos dos movimentos sociais dos anos 1960. Ao mesmo tempo em que ela está nas mãos do grupo, delira com os confederados do Sul dos EUA e com Nazistas a torturando num processo altamente sadomasoquista. A maneira como a arte se apresenta página a página, os muitos símbolos e refrões de cada lado já são fascinantes, porém me impressionou também a equiparidade dos movimentos sociais libertários e os movimentos políticos repressivos. Ambos são violentos – física ou moralmente.

Um homem mais velho com toda pinta de intelectual e uma bela e esbelta mulher resolvem levar Valentina pra casa já que ela parece passar mal. O sujeito comenta que ela não aguentou o desaburguesamento, a mulher rebate “Valentina não é burguesa, é só boa e gentil demais”. Em casa, após horas Valentina acorda com uma de suas clientes, uma modelo, cobrando sua sessão de fotos. Valentina se arruma rapidamente e o que se segue é uma disposição dos quadros que remete a uma relação sexual cada vez mais intensa. Valentina cobra cada vez mais de forma violenta a disposição do corpo da modelo nas atividades, posições e acessórios mais desgastantes. No final a modelo deixa seu corpo suado repousar, exausto: “chega! Oh… chega! Criatura violenta! hh… chega!…hhh”

Crepax com sua Valentina sempre foi associado ao fetichismo. Mas há mais aí nos quadros fragmentários de partes do corpo (boca, mão, olhos) que rivalizam com partes de coisas (relógios, óculos, máquinas fotográficas). Há em Valentina uma coisificação do corpo –  mas não de forma fria, que torna o corpo um mero objeto. Essa coisificação acontece como uma reconsideração do corpo humano enquanto uma matéria a ser retrabalhada, repensada. Isso é perfeitamente sintonizado com os movimentos dos anos 1960, mas mais do que isso, reconhece que qualquer escolha, seja pela guerra do Vietnã ou pelos Hippies, será uma escolha violenta. O corpo é um instrumento violento, que viola a disposição dos objetos (e de outros corpos) a sua volta.

Mas eis o pulo do gato (ou da gata)! Toda violência (violação das coisas) se dá enquanto imagem. Crepax parece deixar claro o tempo todo que o que ele está produzindo são imagens. Não se trata do quadro como um ícone ou representação de personagens ou pessoas num lugar real. A imagem para ele não é um retrato de alguma coisa. A imagem é a própria coisa. Trata-se de pedaços (vivos ou não) enquanto imagens. Por isso tão recorrente espelhos, óculos, olhos brilhantes, fotogramas, assim como a presença da Op Art e constante experimentação dos limites dos quadros por meio de seu traço, recorte, relação entre a sarjeta e/ou outros quadros.

Nesse sentido, mais do que temático (associar arte erudita com arte pop ou abordar temas do seu tempo) Crepax consegue fazer que reconsideremos a arte dos Quadrinhos em sua linguagem, em como quadrinhos em histórias constituem uma experiência sensível. Em resumo, Crepax não faz das HQs uma mídia (que media algo, faz mediação entre arte e realidade), mas sim uma estética (que é sensível a algo, que justamente mescla a realidade da arte e o artístico do real). 

Poderosa essa Valentina, não? Julgo que hoje esse gibi de Crepax está mais atual – talvez mais até do que sua época. Assistimos hoje nos quadrinhos por um lado um uso excessivo do seu caráter pedagógico (educativo e transmissivo de “mensagens”), e por outro sua simplificação enquanto linguagem para atender um olhar tipicamente cinematográfico (a “storybordização” e sua diagramação para I-Pads e Tablets onde tudo se assemelha esteticamente a uma velha fotonovela). Com isso, entre mensagem e cinematização, some as próprias HQs, o próprio material das HQs, suas possibilidades estéticas em si mesmas. Valentina é então, para além disso tudo, um convite sensível da arte dos quadrinhos, com todas suas potencialidades particulares. Antes de encontrar mensagem ou cinema, é encontrar as histórias em quadrinhos e toda riqueza que dela ainda pode advir.

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Valentina saiu cronologicamente em duas edições pela editora Conrad: “Valentina 65-66” (2006) e “Valentina 66-68” (2007). Li por enquanto só o primeiro volume, o segundo quis guardar pra outro momento. É tão pouco material publicado no Brasil que dá pena beber todo o vinho de uma vez só. Ano passado Valentina foi uma das homenageadas da Rio Comic-Con. Para minha enorme decepção não houve nenhuma publicação nova dela aqui no Brasil. Há ainda muito material inédito! Quem quer muito um pouquinho mais de Valentina pode procurar em sebos edições que a editora L&PM lançou nos anos 1980 e início dos 90. Destaco “Valentina no Metrô”. Fico na torcida que alguma editora dê continuidade a esta personagem tão sedutora!