Os Heróis do Politicamente (In)Correto

Não é de hoje as constantes defesas e ataques à essa coisa vaga chamada de “politicamente correto”. Atualmente na grande mídia assistimos o tema inflamar-se com as restrições a obras de Monteiro Lobato, sob a acusação de racismo. Os quadrinhos, nos últimos anos, passaram por situações semelhantes no mundo, como o caso do álbum “Tintim no Congo” acusado de racismo na Bélgica, ou até mesmo Robert Crumb ter seus comix denunciados por incitação à pedofilia, estupro e machismo na Austrália. No Brasil não é por acaso o aparecimento de tantos personagens “cotistas” juntos de uma pasteurização de características mais polêmicas dos personagens da Turma da Mônica. Isso sem falar da confusão em 2009 com o gibi “Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol” com o governo do estado de São Paulo de José Serra, ou a recente indisposição, também em SP, com “Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço” de Will Eisner. Já nos EUA não há como esquecer o exemplo histórico de Fredric Wertham com sua “Seduction of the Innocent”, lançando a partir de 1954 um caça as bruxas aos gibis promotores de “preguiça mental” e “delinquência juvenil”. 

Em todos esses casos há uma suposição de heroísmo histórico e cultural do lado daqueles que promovem medidas do dito politicamente correto (PC). Porém, curiosamente, naqueles que se rotulam salvadores do politicamente incorreto (PI), hoje tão em voga, algo semelhante acontece sob o ataque em nome de uma suposta liberdade perdida. Seja por um lado ou pelo outro, ambos parecem partir de premissas equivocadas. Não dá para empobrecermos a questão apenas no binarismo esquerda (PC) versus direita (PI). Há mais do que isso – e ninguém é o salvador. 

Primeiramente vejamos a atribuída patrulha do PC. O principal argumento em defesa de uma correção da história e da cultura é a justiça tardia por fim alcançada. É pensado que o racismo impune outrora de Hergé e toda uma tradição colonialista agora pagará por seus crimes. Em suma, o que está em jogo é uma revisão de valores, um debate sobre formas de pensamento arraigadas e que precisam ser questionadas. Até aí tudo bem, mas a exigência de proibição, censura, alteração de conteúdo ou notas indicativas de leitura dessas obras mostram uma contradição nessa mesma mentalidade corretora.
Como podemos questionar, promover um debate sobre valores, se exterminarmos o valor do outro lado? Em outras palavras, como podemos ser anti-nazistas se não pudermos conhecer livremente o que foi o nazismo? Aliás, uma das coisas que mais vejo é como ainda somos nazistas porque o assunto virou tabu e com isso pouco atentamos para formas nazistas de ver o mundo que ainda persistem. Assistam o pronunciamento de um secretário ou ministro da saúde que defende a gestão da saúde em nome da produtividade do humano e depois leia sobre a saúde no nazismo. Nós não mudamos em nada. Isso sem falar de outras áreas, como a propaganda, a administração ou o valor da arte para o senso comum.
Sendo sucinto, o combate de uma mentalidade só pode acontecer através do choque, de um sistema que garanta voz aos dois lados, sem suprimir qualquer um dos dois, mas sem igualmente nivelá-los como meros equivalentes. Somente assim há justiça histórica e cultural, não pela correção através do fogo, caneta ou borracha, mas pela possibilidade de conhecimento daquilo que faz tais visões se chocarem. Em outras palavras, só conhecemos algo, só estabelecemos conscientemente valores quando sabemos o que afinal está em jogo. 
Por isso precisamos de democracia. Gosto do pensamento que afasta da democracia a visão de uma ditadura da maioria formada por amiguinhos solidários. A democracia é o oposto disso, ela é o sistema onde permite nós nos odiarmos de uma maneira relativamente pacífica. Sendo que esse ódio não pode ser apagado, faz parte do próprio sistema democrático o conservador odiar o inovador e vice-versa. Nesse sentido o PC acaba engessando o debate, impedindo a circulação de outras ideias e por fim gerando justamente aquilo que ele combate: o pensamento preconceituoso. Pois não há nada mais preconceituoso do que entender o mundo de um modo tal sem o mínimo de escolha ou reflexão a respeito. 
Existe uma provocação filosófica muito boa. Você chega para um grupo e pergunta “por que não matar uma pessoa que eu não gosto?”. A maioria das pessoas vão reafirmar que isso é errado, mas os argumentos costumam ser frouxos. Isso porque esquecemos afinal do porque proibimos matar uma pessoa quando temos vontade. A vantagem de provocações como esta é forçar você a rever valores, firmar argumentos, nem que seja para manter sua ideia original, agora por relativa escolha e não por inércia discursiva.
No entanto, se existe uma problemática patrulha do PC, igualmente existe um autoproclamado heroísmo do PI, uma espécie de auto-titulados salvadores que batem no peito, anunciando-se em nome de uma libertação histórica e cultural. Não é preciso procurar muito pela internet para ver que muitos dos auto-referidos heróis do PI requerem para si uma suposta liberdade perdida, sendo ela, a de você falar qualquer coisa e sair ileso com isso. Curiosamente, esses muitos heróis, caso você questione algumas das suas ideias, vão prontamente encerrar o debate o rotulando de patrulheiro do PC, esquerdista comedor de criancinhas, alienado, fascista, repressor – em resumo, o discurso confrontador é um não-discurso articulado segundo eles. Pensamento livre, só a partir dos desbravadores do PI, eles pensam.
Neste caso os heróis do PI persistem sobre o mesmo erro básico do PC. Pois assim como o primeiro requer uma justiça plena pelo acerto de contas histórico, o segundo defende uma restauração ou caminhada rumo à uma liberdade plena. Mas justiça e liberdade são relativas, dificilmente valores absolutos, o que é justo ou livre para um, pode muitas vezes não ser para outro. Justiça e liberdade são de fato nortes interessantes, mas estão longe de ser um ideal acabado. Toda época, ontem e hoje, sempre teve seus tabus, seus complexos mal resolvidos, cerceando algo aqui ou ali. Ou seja, se um dia existiu um tempo mais livre, há grande chances de ele ter sido somente para você e seus pares, e muito pouco para outros que hoje se manifestam mais efusivamente.

Contudo, ainda mais relevante, é o fato de que justamente o sistema democrático que a patrulha do PC impossibilita, o heroísmo do PI joga uma pá de cal. Pois se democracia é o jogo em que nós podemos nos odiar, ao mesmo tempo é o sistema que não deixa passar de graça o ódio manifestado. Toda e qualquer posição pode ser livremente confrontada. Mais do que isso, toda posição contrária tem o direito a discursar, a ser visto como um discurso, por mais problemático que seja – sendo que depois teremos que ouvir o outro lado. É aquela história, falo o que quero, ouço o que não quero. Ouvir o que não se quer é algo dificílimo e essencialmente democrático. Por isso faz parte certa hipocrisia nos auto-proclamados salvadores do PI. Impedir a massificação aniquiladora do PC parece pertinente, mas optar pelo exato oposto torna a pretensa salvação PI a mesmíssima coisa.

Em resumo, tanto o politicamente correto quanto o incorreto são exercidos por narcisismos típicos de uma época em que tudo precisa ser agradável para si. Hoje ninguém quer ser criticado. Gosto do entendimento de responsabilidade como o saber lidar com as respostas que o mundo nos traz e as que nós lançamos nele. Parece então que responsabilidade se tornou impraticável, pois muitos arrotam o bônus de falar o que se pensa, mas poucos suportam o ônus das respostas vindas de quem pensa diferente.

Sempre é fácil quando há um espelho ou uma parede na nossa frente, mas uma multidão heterogênea é sempre um pesadelo! Por isso os “patrulheiros” do PC defendem uma necessidade de correção coletiva, pois assim o diverso se torna uma coisa só, conformada; e por isso, também, que os “heróis” do PI se esquivam de ver diversidade nas opiniões discordantes, acusando-as de estarem todas a serviço de uma conspiração contra seus valores, por vezes, bastante intransigentes. 

Claro que aqui estou fazendo uma leitura superficial da questão, há muitas nuances, principalmente na esfera do direito. Toda a discussão sobre homofobia satura esse problema, pois até que ponto ainda é liberdade de expressão você hoje dizer “rejeite o homossexual mais próximo de você!”. Seja como for, não há maior justiça do que uma leitura contextual, aquela que sabe ver exatamente o jogo das ideias, contra quem e a favor de quem alguém está falando no seu tempo e espaço. Isso não quer dizer necessariamente pensar a arte a partir de seu lugar de origem, pois por mais que pesquisemos, nossa cabeça está em outra hora e lugar. Contextualizar é, acima de tudo, entender aquela arte no percurso do presente, refletir porque um gibi aqui e agora nos provoca algo tão forte ou não.

Isso somente a educação pode garantir através do diálogo, e não pela defesa do que a arte deve ser ou deve deixar de ser. Não há outra saída e o importante é justamente assegurar que o diálogo não se torne um violento monólogo, pois esconder embaixo do tapete o nazista ou espancar o homossexual são formas de suprimir um diálogo necessário. Paz e silêncio são coisas completamente diferentes. Reconhecermos que costumeiramente somos máquinas de extermínio do modo de pensar alheio me parece um passo fundamental.

O resultado democrático pode ser perigoso, a tolerância exacerbada pode ceder brecha para a intolerância promover-se. Ainda assim, esse arriscado jogo é necessário, somente no ir e vir de argumentos e contra-argumentos que se faz movimento, e movimentar-se livre e responsavelmente é o que ainda me faz querer insistir na democracia.