Mini-resenha: ICI MÊME

Eis um colosso da história em quadrinhos. Até onde sei saiu nada no Brasil. Ao final dos anos 1970 houve no ocidente diferentes investimentos que buscavam uma aproximação qualitativa entre quadrinhos e literatura. Na Argentina, Alberto Breccia alçava voo com suas adaptações ousadas de clássicos da literatura, nos EUA, Will Eisner se reinventava pela denominação graphic novel com Um Contrato Com Deus, e na França surgiu a revista (À Suivre), cujo slogan “a invasão bárbara da literatura” prometia densidade romanesca e liberdade autoral.

Para dar o tom da edição de estreia, Jean-Claude Forest (Barbarella) e Jacques Tardi (dispensa apresentações!) criaram ICI MÊME. Uma história fabulosa sobre Arthur Même, uma homem que em virtude de um litígio (que se desenrola desde a revolução francesa) é proprietário somente dos muros que demarcam as terras de diferentes proprietários. Com isso ele fabulosamente vive literalmente sobre os muros, cobrando pedágio, abrindo e fechando portões, e não podendo jamais botar os pés no chão. Paralelamente o presidente da república – por um espírito de atualidade incrível da HQ – quer para ele uma espécie de Estado dentro do próprio Estado, um lugar onde ele pode disseminar mentiras e arquitetar um golpe. E as terras juridicamente complicadas de Même vem a calhar, fazendo de lá a metáfora explosiva de toda a ganância, egoísmo, solidão e luta pela terra. Cabe dizer que Tardi faz aqui um dos seus melhores trabalhos, transitando entre o real e o fantástico com uma facilidade sinuosa, deixando-nos como se jamais houvesse existido diferença entre essas duas dimensões.

Isso já é um clichê. Mas de verdade, eis aqui um caso TERRIVELMENTE LAMENTÁVEL de uma HQ que ainda não saiu no Brasil, dada sua importância histórica e força poética.