Mini-resenha: Frankenstein, por Junji Ito

Frankenstein por Junji Ito é daqueles casos fascinantes em que uma adaptação literal muda tudo. O romance gótico de Mary Shelley foi quase sempre adaptado no ocidente pela plasticidade romântica. A expressão máxima, em estilo e excelência, são as ilustrações de Bernie Wrightson, o mais legítimo herdeiro de Gustave Doré que ainda quero comentar por aqui. Já no cinema, Boris Karloff imortalizou um monstro que teve sua feiúra atroz comedida pela bela e dramática fotografia em preto e branco do cinema hollywoodiano. Porém, Junji Ito opera por outra poética. Basicamente, se é para ser grotesco, então é pra valer! A história, ainda que a mesma, muda completamente em tom, torna-se incrivelmente menos romântica, mais desconfortável, o deslocamento do monstro é acentuado, não só dramaticamente, mas narrativamente. Ou seja, ele parece nem sequer fazer parte da mesma história. O contraste é tremendo entre aquelas pessoas pomposas do século XIX e tamanha aberração gráfica.

A edição americana da Viz traz ainda os estranhos contos de Oshikiri, uma série de histórias relacionadas a isolamento, solidão e universos paralelos. Aqui Junji Ito faz o que melhor sabe: joga com o horror em duas instâncias, gráfico e imaginário(mais especificamente, paranoide). Como lidar, na presença de amigos, com o testemunho de que esses mesmos amigos estão sendo enterrados no pátio de casa pelo assassino que é você em uma realidade paralela? E o quão terrível quando esse outro você, sujo de barro e sangue seco, te olha nos olhos e sorri como se soubesse uma terrível verdade que ainda te escapa?

De verdade, eu realmente não entendo porque Junji Ito não é uma febre editorial no Brasil.