Dia do Quadrinho Nacional ou O Lobisomem de Londres é brasileiro

Hoje é Dia do Quadrinho Nacional. A data, criada em 1984, é em referência à primeira publicação de “As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte” de Angelo Agostini, em 1869. Para o dia de hoje achei apropriado comentar um clássico dos quadrinhos de horror/erótico brasileiro, “Lobisomem – O Demônio da Noite”, escrito por Gedeone Malagola. Atenho-me na estória “A Deusa dos Olhos Verdes”, desenhada por Nico Rosso e seu assistente Kazuhiko. Lançada em 1973 (ou 74), pela editora M&C, é costumeiramente considerada um dos nossos melhores quadrinhos – e de longe, o que melhor ilustra nossa salada de fruta brasileira.
Quando adquiri a revista achei que se tratava de alguma estória envolvendo o folclórico lobisomem do Brasil. Mas não. O Conde Louis Von Boros é de Londres, tem duzentos anos, se mantém afastado de seu amor, Diana Lay e tenta encontrar uma cura para sua maldição. Apesar de ser um licantropo, seu modus operandi é semelhante ao de um vampiro, mordendo a jugular de suas vítimas, sugando seu sangue, sendo, quase todas elas, mulheres jovens, seminuas e de seios apetitosos. A fraqueza continua sendo prata, inclusive crucifixos do mesmo material.

Na estória em questão, Von Boros, depois de atacar uma deliciosa moça, é descoberto pela tripulação. Sob uma rajada de balas de prata, o conde inglês se lança ao alto mar e acaba numa ilha isolada. Entre templos (tipo asteca) e moais (aqueles da ilha de Páscoa), descobre uma seminua civilização que venera o deus Ayuby e tem na sedutora mulher, a deusa dos olhos verdes, sua representação na Terra. O adereço de uma caveira no lugar da sua genitalha diz muito. A deusa escolhe homens fortes do povoado e entre quatro-paredes tem uma relação sexual fatal para o parceiro – a suposta deusa é na verdade uma vampira. A coisa complica ainda mais quando Von Boros é aprisionado e, a pedido da deusa, se casa com ela. Não é preciso dizer que o clímax, a noite de núpcias entre dois personagens tão sexualizados e bestiais é igualmente sensual e violenta.
É necessário destacar que as reviravoltas do roteiro são seguras e competentes. Inclusive ressalto para a batalha final que nos deixa apreensivos, pois sendo os dois personagens monstros, longe de qualquer protagonismo bom moço, a morte tanto de um quanto de outro é possível – e a curiosidade do desfecho nos mantém envolvidos na luta. Da mesma forma os desenhos de Nico Rosso são impecáveis, seja na paginação, na rebuscada composição de quadro ou na sensualidade de seus personagens, principalmente suas mulheres. Contudo, se não esquecermos que se trata de uma HQ brasileira, nos sentimos diante de um carnaval, de um samba do crioulo doido, de uma salada temática feita pelas frutas da cabeça de Carmen Miranda, de uma pornochanchada light. Ou seja, o que vemos ali é pastiche tupiniquim. E isso não é ruim.
É preciso pensar que essa lambança, em meio ao nacionalismo exacerbado e contraditório da ditadura militar e da defesa da boa moral e costumes cristãos sob o recato do corpo, era uma maneira de, no mínimo, cutucar os limites do regime. A pornochanchada, hoje vista com desprezo, e que de fato posteriormente se acomodou, tinha no seu princípio um debochado teor contestador. Não eram incomuns as relações sexuais surgirem entre parentes ou por adultério, geralmente no seio da prática religiosa ou dos valores edificantes da nação. Sem falar que as pornochanchadas incorporavam todo o imaginário estrangeiro, carnavalizavam aquilo e regurgitavam filmes pra lá de bizarros.
De certa forma, vejo esse mesmo sentimento em Lobisomem de Gedeone e Nico Rosso. Não que com isso eles estivessem militando, assim como não havia uma militância clara nos catecismos de Carlo Zéfiro, na maioria das pornochanchadas ou no pornô de horror como O Despertar da Besta (originalmente Ritual dos Sádicos) de José Mojica Marins (Zé do Caixão), proibido pela censura. Porém, tais manifestações surgiam com amplo respaldo popular indo, em partes, contra o modelo ideal de nação que era imposto. Curiosamente, com a popularização da cartilha pós-modernista de defesa das impurezas, hibridizações e mestiçagens, esse carnaval antropofágico ganhou seu amplo respaldo conceitual – embora nosso modernismo já o antecipasse.
Contudo não quero aqui somente destacar uma discrepância bastante inventiva entre o regime oficial e a manifestação popular duma determinada época. O que quero manifestar é a alegoria como talvez a maior força artística do Brasil. Se cuidadosamente relermos o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, veremos que estávamos à frente de diversas vanguardas que explodiriam na Europa e EUA, como a Pop Art que depois terá considerável importância na atenção artística aos quadrinhos. Andy Warhol era brasileiro. Von Boros também era, e embora nunca tenha vindo ao Brasil, foi o europeu que casou com a moça do além-mar sob a iminente possibilidade de criar uma nova raça de monstros mestiços numa ilha tropical. O que alegoricamente isso pode nos dizer?
Apesar de todas essas alegorizações, não sei se podemos chamar Lobisomem de uma obra-prima, nem sei se o conceito de obra-prima vale de alguma coisa aqui. Mas os uivos selvagens merecem serem ouvidos, pensados e potencializados. Da memória é que podemos dar um passo além nesse dia como qualquer outro – dia do quadrinho nacional.
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Lobisomem foi republicado pela editora Opera Graphica em 2002, no 4ª volume da coleção Opera Brasil. Foram impressos apenas mil exemplares, sendo todos autografados por Gedeone, falecido em 2008. Também acompanha a edição uma segunda estória do trio de artistas e uma análise por Gonçalo Júnior. Contudo havia informações que eu queria complementar, questões tolas, do nível intelectual de uma wikipedia, como datas, quantas vezes a parceria Gedeone-Nico Rosso se repetiu ou mesmo os gibis em foco. Tudo se tornou uma confusão desafiadora e não consegui algumas respostas. Ainda nos falta uma memória mais ampla, do tipo que não se contenta somente com datas e nomes – porém até nisso somos deficitários.
Ainda há exemplares disponíveis de Lobisomem.