Calvin e Haroldo ou A Realidade Mutante e Bizarra do Outro Mundo

Algo que sempre me chama atenção em quadrinhos com personagens infantis são as relações que as crianças têm com o mundo adulto. Aliás, a produção cultural dos últimos dois séculos parece apaixonada pelo tema. Da criança enquanto fundação do adulto futuro em Charles Dickens (Oliver Twist) até a criança como oposição à lógica adulta em Lewis Carrol (Alice), parece haver um fascínio nesses pequeninos seres que de uns tempos pra cá ganharam uma série de direitos, deveres e vasta produção cultural dedicada. Obviamente tudo ainda mediado pelo mundo adulto, por adultos que escrevem livros, compõem músicas e produzem comerciais pra tv estrelando o último brinquedo da moda – e que além de agradar a criança, deve agradar os pais da criança. 

Diante desse impasse, desse confronto criança versus adulto, os quadrinhos me parecem ter tomado alguns caminhos bem delineados. Eu poderia sem pensar muito apontar alguns. Um deles seria aquele em que a criança convive de forma quase que pacífica com o mundo adulto (que a criança é o quase adulto, o adulto do futuro) – Turma da Mônica ou coadjuvantes da Mafalda como Manolito e Susanita, por exemplo. Há por outro lado aquele em que a criança tem relações problemáticas com esse mundo adulto ou até mesmo o recusa – Charlie Brown no primeiro caso e Mafalda no segundo. Tem também uma terceira alternativa onde a criança possui um mundo particular mais ou menos seguro da realidade dos adultos como Little Nemo ou Menino Maluquinho. Mas o que dizer de Calvin e Haroldo?
De todos esses caminhos possíveis, me chama atenção como o menino inquieto e o tigre de pelúcia de Bill Watterson consegue misturar todos eles e ainda dizer algo mais. Calvin não declara abertamente guerra ao mundo adulto, nem parece se sentir profundamente incomodado por ele. Claro, ele odeia deveres de casa, tomar banho e cumprir uma série de obrigações da “boa conduta”, mas ao mesmo tempo ele adora filmes adultos, atividades perigosas ou violentas. 
Não foi assim nossa infância? Crianças que querem fazer coisas de adultos sem deixar de serem crianças? É fácil inverter a questão: até que ponto os afazeres das crianças não estão adultos demais e o mundo adulto extremamente infantilizado (aqui no mau sentido da expressão em suas guerras, cultura e valores que mais lembram uma criança birrenta – coisa que Calvin e Haroldo por vezes constatam). Calvin parece conviver com o mundo adulto procurando ser sempre seletivo e guiado por um impulso alegre que definitivamente não quer perder tempo com chateações. Há algumas lamentações, mas elas costumam ser tão breves como a atenção de uma criança. 
Quando o mundo adulto pesa demais sobre Calvin ele então o transforma, o devolve de maneira ao mesmo tempo criativa e cruel (onde torna óbvio o que o mundo adulto por vezes é). Isso se dá numa tira onde o pai de Calvin lhe dá uma moeda tentando ensinar-lhe o valor do dinheiro. Calvin então tem delírios perversos de grandeza, pretende comprar casas, carros e pessoas. O pai por fim  declara seu erro, não necessariamente de intenção me parece, mas na tentativa fracassada de fazer Calvin compreender o que o mundo adulto significa. Pois mesmo na invasão do mundo adulto surge o exagero criado a partir da fabulação infantil. Há ainda criatividade então. Calvin torna o mundo cruel um lugar inventivo.
Nesse ponto aparece o mundo imaginário de Calvin, algo típico dos quadrinhos com crianças. Mas há aí uma diferença enorme personificada em Haroldo. Pois o mundo imaginário de Calvin parece por vezes desafiar a estabilidade da realidade. Mesmo que os outros vejam só uma pelúcia e Calvin um tigre, Haroldo apresenta uma maturidade e faz atividades impossíveis a Calvin. Se tentarmos vamos conseguir inventar uma explicação racional aqui ou ali, porém me parece que com a imaginação do mundo de Calvin e Haroldo um pensamento até tão confortável se desestabiliza: mundo adulto igual realidade, mundo infantil igual ilusão. Não poderia ser o contrário? Até que ponto o tigre é real e a pelúcia a alucinação de uma coletividade incapaz de enxergar algo mais?
Podemos ir inclusive mais longe: dá pra escolher entre realidade mais verdadeira e realidade menos verdadeira? Dá pra hierarquizar entre um tigre (quem num zoológico por nós é tratado como uma pelúcia) e uma pelúcia (que para olhos criativos pode se tornar um ameaçador tigre)? É justamente por não menosprezar a infância entre critérios tão frágeis como verdadeiro e falso que reside toda força de Calvin e Haroldo. Uma força que desafia convenções sem ignorá-las, que joga com as convenções, as metamorfoseia em outra coisa. Talvez esse seja o principal convite de Watterson: a amizade – de um garoto por tigre de pelúcia, de nós com uma infância a ser reinventada na vida adulta. Não é pouco.

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Calvin e Haroldo (Calvin and Hobbes no original) saiu nos EUA entre 1985 e 1995. Há por lá todas as tiras em um box de luxo muito bonito e caro. No Brasil tem saído pela editora Conrad. Ao total já foram 9 volumes. Na ordem “E foi assim que tudo começou”, “Tem alguma coisa babando em baixo da cama”, “Yukon Ho!”, “Criaturas bizarras de outro planeta!”, “A hora da vingança”, “Deu tilt no progresso científico”, “O ataque dos perturbados monstros de neve mutantes e assassinos”, “Os dias estão todos ocupados”, “Felino selvagem psicopata e homicida”  e “O mundo é mágico”. Li apenas os dois primeiros e o último. Ainda quero escrever mais sobre Calvin e Haroldo aqui. Há ainda tanto por brincar.
  • oi linck, agradeço tua visita e também por que não conhecia teu blog , sou fã de HQs e o Cavin e a Mafalda me motivam muito desde a infancia comecei a gosta de hqs antes mesmo de saber ler, com revistas do proprio calvin, conan e tex e essa é uma paixão qeu está comigo até hoje 😀 um ponto interessante do teu texto é o fato dos almanaques do calvin agora estarem saindo aqui no Brasil pela conrad, essa nova edição eu já pude conferir e gostei muito do formato e da organização das tiras, e essa questão de crianças criticas e um tanto negativas em alguns momentos, eu credito que nosso bons quadrinistas pensaram qeu pudiam fazer criticas serias e que saisse para os mal informados como humor, mas quem conhece as histórias por trás sabem que tem um fundo bemmm crutico a politicas daquela época e que servem ainda hoje 😀 bjo josi